D.
Vários aspectos das suas vidas se associavam à cor azul. Para começar, o fumo denso que, como serpentes, subia dos seus cigarros para o tecto da divisão da casa. Depois, vários indícios foram lentamente emergindo, como bolhas de ar num denso molho em preparação. Primo, a melodia que A. escutava na telefonia. Secundo, o mostrador do relógio de pulso que T. acabava de estrear. Tertio, a face estupefacta de D. Na manhã seguinte as autoridades punham em curso uma nova investigação.
Uma lista que anda por aí
Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio.
A Sibila, Agustina Bessa-Luís.
O Livro do Desassossego, Fernando Pessoa.
A Casa Grande de Romarigães, Aquilino Ribeiro.
Para Sempre, Vergílio Ferreira.
Sinais de Fogo, Jorge de Sena.
Os Passos em Volta, Herberto Hélder.
Os Cus de Judas, António Lobo Antunes.
O Delfim, José Cardoso Pires.
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago.
Húmus, Raúl Brandão.
Finisterra, Carlos de Oliveira.
D.
Contramão no Maxime
Concerto de lançamento do álbum Um fim de semana no Pónei Dourado, no dia 30 de Abril de 2009.
Perfidia
Nadie comprende lo que sufro yo
Tanto que ya no puedo sollozar
Solo temblando de ansiedad estoy
Todos me miran y se van
To you
My heart cries out "Perfidia"
For I find you, the love of my life
In somebody else's arms
Your eyes are echoing "Perfidia"
Forgetful of the promise of love
You're sharing another's charms
With a sad lament my dreams are faded like a broken melody
While the gods of love look down and laugh
At what romantic fools we mortals be
And now, I know my love was not for you
And so I take it back with a sigh
Perfidious one, Goodbye
With a sad lament my dreams are faded like a broken melody
While the gods of love look down and laugh
At what romantic fools we mortals be
And now, I know my love was not for you
And so I take it back with a sigh
Perfidious one, Goodbye
Goodbye
Interpretação de Cristina Alfaiate e João de Athayde.
D.
Sou um pipi do caralho (também)
Caro D.
Da minha janela vejo uma chuva sob um céu cinza sobre um parque outonal.
O sol a desafiar as nuvens. Aos poucos, lentos clarões mudam o balanço cromático de amarelos, verdes e castanhos dourados. O campo de visão se expande quando vem um clarão. E algo acontece dentro de meu peito.
Cidadãos caminham entre as árvores. À distância não lhes observo qualquer consideração, nem pela chuva, nem pela beleza.
Imagino o que diriam estes estranhos da minha mais recente aquisição. Aprovação e apreço, sem dúvida.
Não D., não se trata aqui de um reconhecimento da tua influência sobre mim. Seria tacanho e, se justificado, um exercício que, sem dúvida, conduziria à tua frustração.
Pretendo sim, expôr duas bases de reflexão, a considerar:
1. Porque esse excelente produto tem tão pouca presença e penetração fora do fuso horário ECT?
As necessidades por ele endereçadas estão longe de serem locais.
2. O que acontece se, contra as especificações do fabricante, estendermos um pouco a substituição de seu componente mais importante?
E é aqui D., no ponto 2., e, sim apenas para ele, que poderei beneficiar da tua larga experiência. Ainda assim, regozijas, bem sei.
Considera, no entanto, que não pudemos todos saber de tudo. Além disso, conhecimento é um bem acumulável. Seria injusto pedir a um economista que fizesse pão da mesma qualidade que um padeiro de uma longa linhagem de padeiros.
Estendo. portanto, um tapete vermelho. Entendo ser a minha obrigação baixar a cabeça em obséquio quando, em teu desfile de vitória, passares por mim anunciando "sou um pipi de maior experiência, sou o maior pipi de todos!"
A.
Da minha janela vejo uma chuva sob um céu cinza sobre um parque outonal.
O sol a desafiar as nuvens. Aos poucos, lentos clarões mudam o balanço cromático de amarelos, verdes e castanhos dourados. O campo de visão se expande quando vem um clarão. E algo acontece dentro de meu peito.
Cidadãos caminham entre as árvores. À distância não lhes observo qualquer consideração, nem pela chuva, nem pela beleza.
Imagino o que diriam estes estranhos da minha mais recente aquisição. Aprovação e apreço, sem dúvida.
Não D., não se trata aqui de um reconhecimento da tua influência sobre mim. Seria tacanho e, se justificado, um exercício que, sem dúvida, conduziria à tua frustração.
Pretendo sim, expôr duas bases de reflexão, a considerar:
1. Porque esse excelente produto tem tão pouca presença e penetração fora do fuso horário ECT?
As necessidades por ele endereçadas estão longe de serem locais.
2. O que acontece se, contra as especificações do fabricante, estendermos um pouco a substituição de seu componente mais importante?
E é aqui D., no ponto 2., e, sim apenas para ele, que poderei beneficiar da tua larga experiência. Ainda assim, regozijas, bem sei.
Considera, no entanto, que não pudemos todos saber de tudo. Além disso, conhecimento é um bem acumulável. Seria injusto pedir a um economista que fizesse pão da mesma qualidade que um padeiro de uma longa linhagem de padeiros.
Estendo. portanto, um tapete vermelho. Entendo ser a minha obrigação baixar a cabeça em obséquio quando, em teu desfile de vitória, passares por mim anunciando "sou um pipi de maior experiência, sou o maior pipi de todos!"
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A.
The Neon Demon
Trata-se de um dos filmes mais estimulantes que me foi dado a ver nos últimos anos.
Segundo os Cahiers do Cinéma, 2016 ofereceu aos cinéfilos uma das melhores colheitas de sempre do festival de Cannes. O primeiro travo confirma esse juízo.
Aguardo agora com ansiedade a chegada de Elle, Toni Erdmann, Ma Loute, Aquarius e Rester Vertical às salas dinamarquesas.
D.
Youth
"Os meus rapazes, são os rapazes de Youth
Nós íamos a mil lugares, andávamos sempre juntos
Eu vou andar, vou ver do meu futuro, mas se eu não voltar
Não me julgues puto, eu tou a correr no mundo."
Allen Halloween, Youth, em Híbrido.
D.
Pitonisa de Neptuno avistata en La Habana
La calle de la antigua fábrica de aceite (o era acero?)
Con un ticar de un muslo, que asomaba a la esquina sur,
toda la calle se vertió, desesperada y rápida, hasta ella.
El jinetero estafador, la vendedora de cigars,
Dos serenos que iban a trabajar, lejos!
Un almendrón desenfrenado de color fucsia,
Tres futuros chefs cocineros en sus uniformes,
Una mama y un papa llantas, un curador de bienal
y suyo artista mui amigo, el cual le gusta el capital
mucho más que el capitalismo, la chimenea de la fábrica,
que se torció al punto de que caeron dos o tres ladrillos.
Hasta la puerta de dragones se viraron cabezas,
y los que estaban en el malecón se callaron, un momentico.
Mientras eso, sus cadenas avanzaban, indómitas,
su sombra en diagonal por la calle
- un corte triangular sobre las fachadas, negro, igualitario.
Ah, pitonisa de Neptuno! A todos les silbaba la lengua y trocaban los ojos.
A.
Con un ticar de un muslo, que asomaba a la esquina sur,
toda la calle se vertió, desesperada y rápida, hasta ella.
El jinetero estafador, la vendedora de cigars,
Dos serenos que iban a trabajar, lejos!
Un almendrón desenfrenado de color fucsia,
Tres futuros chefs cocineros en sus uniformes,
Una mama y un papa llantas, un curador de bienal
y suyo artista mui amigo, el cual le gusta el capital
mucho más que el capitalismo, la chimenea de la fábrica,
que se torció al punto de que caeron dos o tres ladrillos.
Hasta la puerta de dragones se viraron cabezas,
y los que estaban en el malecón se callaron, un momentico.
Mientras eso, sus cadenas avanzaban, indómitas,
su sombra en diagonal por la calle
- un corte triangular sobre las fachadas, negro, igualitario.
Ah, pitonisa de Neptuno! A todos les silbaba la lengua y trocaban los ojos.
A.
Admiral Dreams
Àquelas madeiras,
quando árvores,
haviam sido
atadas bruxas.
Na floresta sobraram
cinzas e sangue
e palavras impregnadas
ao solo e à casca.
Em seus sonhos ouvem-se
palavras como iskehar,
brofunum. Há neblinas
e fogos fátuos, há
runas e ranger de dentes.
E de tudo isso
cresceu o pinho.
Primogénito do mar,
base da religião,
chave da guerra,
estrutura de cidades.
Transportado por rio,
aparado por machados,
intertravado em cunhas.
Ergueu-se um armazém.
Nele foram pesados
séculos e vidas.
Especiarias, cerâmicas,
tabaco, vinho, ouro,
papagaios, cereais.
Após séculos, um hotel.
No seu quarto,
quatro longas traves.
Ao centro, uma coluna.
Nela me encostei,
o corpo sobre
a verônica de um corpo.
Meus sonhos? Visões
de poderes e de horrores.
A.
quando árvores,
haviam sido
atadas bruxas.
Na floresta sobraram
cinzas e sangue
e palavras impregnadas
ao solo e à casca.
Em seus sonhos ouvem-se
palavras como iskehar,
brofunum. Há neblinas
e fogos fátuos, há
runas e ranger de dentes.
E de tudo isso
cresceu o pinho.
Primogénito do mar,
base da religião,
chave da guerra,
estrutura de cidades.
Transportado por rio,
aparado por machados,
intertravado em cunhas.
Ergueu-se um armazém.
Nele foram pesados
séculos e vidas.
Especiarias, cerâmicas,
tabaco, vinho, ouro,
papagaios, cereais.
Após séculos, um hotel.
No seu quarto,
quatro longas traves.
Ao centro, uma coluna.
Nela me encostei,
o corpo sobre
a verônica de um corpo.
Meus sonhos? Visões
de poderes e de horrores.
A.
À volta de Purity
Após o regozijo e intensidade provocados pela leitura em catadupa de The Corrections e Freedom, apressei-me a querer descobrir outros textos de Jonathan Franzen. Embora com algum desfasamento, nos meses que se seguiram comecei a ler Strong Motion (o romance que antecede em dez anos o lançamento de The Corrections) e How to be alone, uma colecção de ensaios publicada um ano depois de The Corrections.
Apesar da expectativa e entusiasmo que me moviam, não cheguei sequer a meio de nenhum dos dois. Em ambos os casos, o que me levou a desistir da leitura foi a irritação com o autor, que é alguém francamente zangado com o mundo e que assume uma postura explicativa/prescriptiva sobre a realidade, o comportamento das personagens e das pessoas em geral, que é dificilmente suportável por quem não partilha a sua visão.
A este respeito vale muita a pena ver a entrevista que Jonathan Frazen deu à New Yorker o ano passado, onde o autor descreve, no meio de uma conversa muito rica e divertida com o editor da New Yorker, a sua evolução pessoal e autoral.
A evolução descrita pelo autor parece ter abrangido também a sua escrita ensaística, pelo menos a ver pelo texto extraordinário que é Farther Away. Uma peça que mistura de maneira assombrosa a descrição de uma viagem à ilha de Masafuera, a evolução do romance na cultura ocidental, a sua paixão ornitológica, a tensão entre o indivíduo e a vida em comunidade e o suicídio de David Foster Wallace. Imperdível.
D.
Breve réplica
Caro A., a minha inquietação com a visão de Cildo Meireles não vai além do nome do seu autor. Quem se propõe a discorrer sobre a arte talvez devesse começar por se nomear doutra forma, concordarás. Cildo?!
Ao contrário do que sugeres, a ideia de arte-ciência que descreves não é empírica, mas ideológica. Cildo tem uma ideia do que pode/deve ser a arte ou a experiência estética no futuro; não oferece uma descrição da experiência estética vivida pelos seus contemporâneos.
Tenho muitas dúvidas que essa ideia venha a materializar-se. Porém, se quiseres continuar esta conversa, importaria que fosses mais claro sobre essa ideia de arte, e que a ilustrasses com exemplos, mesmo que hipotéticos.
Quanto à minha experiência individual, sou totalmente a favor da arte patológica!
D.
Ao contrário do que sugeres, a ideia de arte-ciência que descreves não é empírica, mas ideológica. Cildo tem uma ideia do que pode/deve ser a arte ou a experiência estética no futuro; não oferece uma descrição da experiência estética vivida pelos seus contemporâneos.
Tenho muitas dúvidas que essa ideia venha a materializar-se. Porém, se quiseres continuar esta conversa, importaria que fosses mais claro sobre essa ideia de arte, e que a ilustrasses com exemplos, mesmo que hipotéticos.
Quanto à minha experiência individual, sou totalmente a favor da arte patológica!
D.
A arte-ciência de Cildo Meireles, ou Um texto cínico
A arte patológica não me interessa. Um traço realizado de uma maneira única, passível de ser produzido num único momento por um único indívíduo é uma arte que não me interessa. Para mim a arte precisa ser uma contribuição. Pode por vezes ser um abrir de portas, para que outros então se apropriem dela, a prossigam, a continuem, como um processo ou um edifício.
Uma visão inquietante, caro D.?
Nem tanto. A arte, bem como a moral, não sobreviverão ao declínio da Humanidade.
A.
A frase é uma transcrição livre de Cildo Meireles, no documentário Cildo (2008), de Gustavo Moura. Ressonante da noção kantiana de ciência induz à discussão do empirismo na arte.
A nova era da arte está firmada em um empirismo global e diletante e por isso seletivo e rápido como nunca antes. Esta seleção natural da arte privilegia o 'efeito sobre mim', traz desafios para o medium, mas pode muito bem ter uma contribuição maior para a consciência humana.
A arte ciência é googlável, especializada, segmentada, em comunicação, em troca. Alcança a alma dos homens sem estar limitada a meio, ancestralidade, conjuntura. A arte ciência é política.
A arte se liberta do super-artista, do homem em milhões, de dons únicos, de técnicas especiais e especializadas. E o substitui pela intervenção da massa. É essa a revolução, pressentida e descoberta por Duchamp e Beuys, que a nova era de redes neuronais permite. A livre e caótica associação dos milhões produzindo para cada indivíduo. Um processo multiplicado por milhões, por décadas. A arte não mais cabe em museus e galerias. Os espaços de consulta e arquivo são meros gabinetes de curiosidades. Nenhum homem se pode afirmar acima da arte, ela é maior, mais ampla, mais veloz. Ela espelha a humanidade.
As taxonomias estão caindo e a análise evoluindo para a antologia de momentos significantes e contribuições definitivas. A hermenêutica do sentir será o novo conceito de arte. A cronologia da história da arte será substituída por uma sucessão sem antes ou depois de grandes momentos da partilha do alter-humano. O exercício de super-curadores, que se antecipa já, cruzará todas as artes, na libertação de movimentos, categorias e médiuns.
A arte ciência é googlável, especializada, segmentada, em comunicação, em troca. Alcança a alma dos homens sem estar limitada a meio, ancestralidade, conjuntura. A arte ciência é política.
A arte se liberta do super-artista, do homem em milhões, de dons únicos, de técnicas especiais e especializadas. E o substitui pela intervenção da massa. É essa a revolução, pressentida e descoberta por Duchamp e Beuys, que a nova era de redes neuronais permite. A livre e caótica associação dos milhões produzindo para cada indivíduo. Um processo multiplicado por milhões, por décadas. A arte não mais cabe em museus e galerias. Os espaços de consulta e arquivo são meros gabinetes de curiosidades. Nenhum homem se pode afirmar acima da arte, ela é maior, mais ampla, mais veloz. Ela espelha a humanidade.
As taxonomias estão caindo e a análise evoluindo para a antologia de momentos significantes e contribuições definitivas. A hermenêutica do sentir será o novo conceito de arte. A cronologia da história da arte será substituída por uma sucessão sem antes ou depois de grandes momentos da partilha do alter-humano. O exercício de super-curadores, que se antecipa já, cruzará todas as artes, na libertação de movimentos, categorias e médiuns.
Instead of explaining our propensity to expect regularities as the result of repetition I proposed to explain repetition-for-us as the result of our propensity to expect regularities and to search for them... Without waiting, passively, for repetitions to impress or impose regularities upon us, we actively try to impose regularities on the world. Popper
Uma visão inquietante, caro D.?
Nem tanto. A arte, bem como a moral, não sobreviverão ao declínio da Humanidade.
A.
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